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Até quando!?
Julia Vicente

Tava aqui ouvindo uma musiquinha que me fez pensar.
As vezes a gente se vê encurralado.
Parece que ninguém respeita ninguém,
que nada mais tem jeito.
A gente se pergunta pra onde vai esse mundo...
E as vezes esquece que também fazemos parte dele.
Que tudo pode ser mudado. E que cabe a nós,
a cada um de nós, se valorizar.
Não permitir ser passado para trás,
não se deixar dominar pelos mais fortes.
Porque cada um de nós tem os mesmos direitos,
pensa por si só, e se deve exigir o respeito
e a diginidade, que todo ser humano merece.
E que tão poucos conseguem...

Para ouvir a música, clique aqui!

"Muda que quando a gente muda
o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo
na mudança da mente
E quando a mente muda
a gente anda pra frente
E quando a gente manda
ninguém manda na gente!
Na mudança de atitude não há mal
que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura
a gente fica mais seguro
Na mudança do presente
a gente molda o futuro!
Até quando você vai ficar levando porrada,
até quando vai ficar sem fazer
nada?"

Gabriel O Pensador

Essa é uma das crônicas mas lindas que eu já li!
Lembro perfeitamente do dia. Da sala de aula,
de alguém lendo em voz alta, enquanto a turma acompanhava.
Da lágrima que caiu distraida...
Da emoção que tive vergonha de sentir ali,
no meio da sala.

As pessoas um dia vão.
Mas suas obras ficão para sempre...
Fernando Sabino não vai deixar só saudade.
Ele já deixou tanta coisa!


A última crônica
Por: Fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.
A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

"De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que estamos sempre
começando
A certeza de que precisamos continuar
A certeza de que seremos
interrompidos antes de terminar
Portanto, devemos fazer:
Da interrupção um caminho novo
Da queda um paso de dança
Do medo, uma escada
Da procura, um encontro."

*12/10/1923
+11/10/2004


Fonte: Projeto Releituras

Plástica
Qual é a sua cara?

Reportagem Nina Lemos

Boca de Angelina Jolie, nariz de Jennifer Aniston, sobrancelha de Catherine Zeta-Jones. Esse abençoado composé pode ser seu. Basta que se tenha coragem, tempo, boa resistência à dor que durará meses, bom humor para lidar com possíveis erros e cartão de crédito com limites generosos: hoje, qualquer clínica de cirurgia plástica é capaz de "acertar" seu rosto. Será que daqui a dez anos teremos todos a cara da Barbie?

Se você visitar consultórios de cirurgiões plásticos de São Paulo e conversar com os médicos, vai se sentir dentro de programas como Extreme Makeover, que mostram o antes e o depois de gente que procura ajuda médica porque não está satisfeita com a própria aparência. Toda a odisséia parece rápida e fácil como uma ida ao shopping center para reformar o guarda-roupa. Fala-se com tranqüilidade de boca da moda, nariz mais procurado, novas técnicas de enxerto e por aí vai.

Quem folheia as revistas de celebridades e se sente mal por não ter a boca tão carnuda quanto a da estrela da novela certamente vai se sentir aliviada após consultar um cirurgião e descobrir que nem todo mundo nasce com os lábios da Daniella Cicarelli. Boa parte daquelas mulheres famosas provavelmente injetou alguma substância com nome bizarro na boca. Se você quiser, pode fazer o mesmo fácil, fácil. "A boca da moda é grande, bem beiçuda", ensina o cirurgião plástico Murillo Ribeiro, da Clínica Vitalitá, nos Jardins, mesmo bairro nobre paulistano onde ficam lojas de grifes sofisticadas como Armani e Versace.

Nariz parcelado
Pois é. Na era da imagem, não são só as vitrines que ditam o que deve ser usado. Agora é preciso redesenhar o corpo e o rosto também. Os cirurgiões estão ao alcance de todos e parcelam seu novo nariz em prestações a perder de vista. Insatisfeita com o tamanho do seu queixo? Peça para deixá-lo mais quadrado e fique super na moda! Não gosta do seu perfil? Que tal mudar nariz, boca e queixo de uma vez só? A perfiloplastia é uma das práticas mais procuradas por adolescentes no consultório de Paulo Jatene, em Higienópolis, outro bairro nobre de São Paulo. As meninas ganham a operação de presente de aniversário dos pais. Sim, em vez de festa ou de viagem para a Europa, há quem prefira comemorar a data internada em hospital.

Quando você liga a TV, vê várias pessoas que entraram nessa onda. Mostrar homens e mulheres transformados (ou em pleno processo) virou tendência. Use o controle remoto e acompanhe gente sendo cortada e serrada em programas como Extreme Makeover e Beleza Comprada. No fim, todos se dizem satisfeitos por terem sido mexidos e remexidos.

Numa visita ao consultório do doutor Jatene, a reportagem da Tpm encontrou na sala de espera uma paciente de 20 e poucos anos com os olhos roxos. Tinha acabado de colocar silicone nos seios e aproveitou para fazer uma blefaroplastia (cirurgia das pálpebras). Mas a operação mais popular por lá é a rinoplastia (procedimento que muda o nariz serrando o osso). Essa também é a cirurgia que mais cresce no Brasil, de acordo com Oswaldo Saldanha, Secretário Geral da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Ter o nariz dos sonhos já superou até o ideal de ficar mais jovem fazendo um lifting. Mas fique atenta porque as preferências mudam em ritmo frenético. Há três anos, o grande barato era fazer lipo. Hoje, a ordem é alterar o rosto. De 2001 para cá, as plásticas faciais aumentaram 50% na clínica de Jatene. As rinoplastias já somam 30% dos procedimentos. Em segundo na preferência das clientes vem o lifting (rejuvenescimento facial) e, em sua cola, a mentoplastia (mudança de queixo).

Estranhos no paraíso
"Hoje em dia só é complexado quem quer", diz o cirurgião. Mas será que é assim mesmo tão simples? "Buscar felicidade mudando a fisionomia é querer preencher um vazio existencial de forma milagrosa", alerta Alexandre Sadeh, psiquiatra do Hospital das Clínicas. Faz você parar para pensar. Quantas vezes não resolvemos ir às compras apenas porque estávamos entediadas e acabamos voltando para casa com o gosto do prazer efêmero na boca? Comprar aquele sapato tão desejado nos deu quanto? Dez, quinze minutos de satisfação? E depois? Com o boom das plásticas hoje um nariz reformado custa tanto quanto um sapato novo. E agora, Maria?

A banalização das cirurgias preocupa o psiquiatra Táki Cordas, coordenador do Ambulim (Ambulatório de Bulimia do Hospital das Clínicas da USP). Da mesma forma que há quem seja viciado em compras, existe um número considerável de pessoas que não consegue aceitar a própria imagem e quer obsessivamente transformá-la. Essa doença, chamada de dismorfofobia, é semelhante à anorexia. Só que, em vez de ficar maníaca por magreza, a pessoa malha exageradamente. Ou faz várias plásticas. Nos casos mais graves, pode-se querer parecer com outra pessoa, em geral, com um ídolo. A patologia foi exibida mês passado pela MTV, na série I Want a Famous Face. "Essas pessoas não estão satisfeitas com a própria identidade. Só que a identidade não se muda nem se perde", diz Sadeh.

Afinal, será que estamos nos submetendo ao bacanal do botox porque ele agora é acessível, ou será que por trás da corrida pelo novo nariz existe algo mais arrepiante? Não queremos mais ser quem somos? Estamos tentando resolver crises de identidade com enxertos de colágeno? Com o surgimento de coisas como "a boca da moda" não acabaremos ficando todas iguais? Para onde estamos mandando uma de nossas maiores riquezas, a que atende pelo nome de diversidade?

Fonte: MSN-Reportagens

Morte e Vida Severina (trecho)
Por: João Cabral de Melo Neto

Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.

é de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
neste latifúndio.

Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.

é uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.

é uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.

é uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.

Viverás, e para sempre
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.

Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.

Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.

Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.

Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.

Fonte: Nave da palavra

Para o meu filho de oito anos
Por: João Paulo Cuenca

Meu filho
Pode parecer meio maluco
Escrever isso tudo
Bem antes de te conhecer

É que você logo vai encontrar uma menina
E se sentir como quando chega na sala
E tem presente na árvore de Natal

Se ela gostar de você, melhor ainda
Vai ser como se fosse Natal todos os dias

"Como meu pai sabia que isso iria acontecer?"
Não, o seu pai não é nada esperto
Mas é que acontece com todo mundo
Comigo, com o seu avô e por aí vai

É como se não houvesse
Outra pessoa no mundo
Como se a gente não precisasse
Comer, brincar ou estudar

Quando acontece é só você e ela

Sem entender direito o porquê
Você vai gostar do rosto
Da voz, do cabelo, dos olhos
Vai gostar até do caderno
Do lápis, do estojo, da letra
E de tudo o que for da menina

E você vai querer escrever
Uma carta dizendo coisas
Que você nem sabe explicar direito

É difícil achar essas palavras
Até para os adultos
E para os poetas

(Mas eu sugiro um cara chamado
Vinicius de Moraes
Já ajudou seu pai algumas vezes)

Você vai contar as horas
Para ir ao colégio
E as noites vão parecer longas
Como se durassem dias
E os meses das férias
Vão demorar anos pra passar

Chorar de saudade
Não tem problema nenhum
Seu pai já fez isso
E seus professores também

(Todo mundo esconde
Mas eu estou te contando
Esse segredo dos adultos
Então não se preocupe)

Você é um cara legal
E com um pouco de sorte
Essa menina também vai
Gostar de você

Mas, se você não tiver sorte
Vai ter na próxima vez
Ou na vez depois da próxima
Ou na outra

Mas ela vem

Se você tomar um fora da menina
Lembre que seu pai já passou por isso

Quando eu conheci a sua mãe
Eu andava triste, cabisbaixo
Por causa de um outro amor
Que desistiu de mim

E, olha só, acabou dando certo
Sua mãe me deu amor e me deu você

Pode parecer meio maluco
Eu escrever isso tudo agora
Quando você ainda nem nasceu

Mas é que é normal
A gente ficar triste
Quando a menina não quer saber
A gente ficar feliz
Quando a menina dá um sorriso

E a vida fica toda ali presa no sorriso da menina

Para que seu pai não vire um chato
Antes mesmo de ter batizado você
Resta dizer que importante mesmo
É não se arrepender de fazer
É dar sem esperar receber

E ver que o amor todo está dentro de você

O paralelos está com uma seção
de literatura infantil! Pra quem gosta,
vale a pena conferir

Fonte: P a r a l e l o s

A roupa da Mariana
Por: Ana Letícia Leal

Como é gostoso lembrar
dessas neuras de adolescente!
Quem ainda não tem algumas ?
(É grande, mas vale a pena!)


Caraca, eu sou louca, cara! Marquei de ir ao cinema com outro cara! Putz! Como é que eu ia imaginar que um dia eu ia ter um amante?! Caraca! E se o Pedro descobrir? Também, quem mandou ele não querer me ver hoje?
Putz, falei para o Joca passar em meia hora! Como vou escolher uma roupa tão rápido? Graças a Deus, já tomei banho! Meia hora! Eu devia ter falado duas horas, do jeito que sou enrolada para me vestir...
O pior é que não tem ninguém em casa para me aconselhar. Não sei o que minha mãe e a Lu tanto fazem na rua! Elas é que são boas para escolher roupa. Se bem que a Lu... Nem parece irmã! Não gosta de me emprestar nada.
Rarrááá... Vou aproveitar que a Luciana saiu e vou pegar uma daquelas roupas que ela usa para a guerra! É tiro certo! Rarrááá! Hoje, ninguém me segura!
Vai passar o domingo estudando Matemática, não é, Pedro? Tudo bem! Então, vou sair com o Joca! Vai rolar beijo de língua, sim! Daqueles que a gente só deu no segundo dia, éééé! Se bobear, cara, vai rolar muito mais, sacou?! Não agüento mais o seu grude, tá sabendo, Pedro?!! Uuuuííííííí... Chega de compromisso, che-gá!!!
Agora, sou experiente. Já beijei o Pedro várias vezes. Meu primeiro beijo com o Joca vai ser de arrepiar. Vou usar aquela técnica de passar a minha língua pelo céu-da-boca dele, ao mesmo tempo que mexo na orelha! Rá! Ele vai gamar!
A roupa, deixa eu ver. Hum. Vestido rosa de jeito nenhum, é muito patty. Azul? Comum. Preto é básico demais... Ah, já sei! Com esse aqui, vou ficar divina! Sapato... legal, batom... isso, agora uma escova no cabelo, bolsa... essa bolsa, chave, carteira... Pronto!
Interfone? Mas já? Caraca, o Joca veio antes da hora! Bem. Não posso ser insegura. Se eu não descer agora, ele vai sacar que demorei a me arrumar. Vou descer para ele sentir que não estou dando a mínima! Porta, botão do elevador, entro no elevador, caraca!
É o espelho que está louco ou estou assim mesmo? Putz... Vestido vermelho tomara que caia! O que isso tem a ver com cinema no shopping? E o pior: longo e de crepe georgette... Tudo bem. Saio do elevador e volto ao quarto da Lu. Meu Deus, a minha irmã me paga! Onde já se viu ter uma roupa dessas?!! Onde é que eu estava com a cabeça quando ves...
O elevador desceu! Claro, eu que tinha apertado! Meu Deus, onde é que isso vai parar?! Não posso dar pinta de nada! Se algum vizinho me vir, eu...
- Joca? (Ai, meu Deus, ele abriu a porta do elevador para mim!) Huum... Sabe o que é, Joca? Eu ainda ia dar uma subidinha...
- Éééé...
- Éééé... (Ele está lin-do!)
- Vai subir?
- V... V... (Não posso dar pinta de insegura, meu Deus, o que eu faço? Será que saio assim? Mas ele está de bermuda e camiseta, não tem nada a ver, caraca! Ele de tênis e eu de escarpim! Devo ser louca...)
- Mari, acho que... Não me leve a mal, mas...
- Mas?
- Acho que... não tem muito a ver essa roupa com um cineminha, né?
- (Não! Claro que não! Minha irmã usa isso sempre que termina um namoro, ela fala, hoje eu vou para a guerra, mas tem um pequeno detalhe, além de ela ser bem mais velha, nunca usou isso para ir a cinema em shopping...)
- Desculpa! Você se ofendeu, né? Desculpa! Não faz essa cara, Mari. Olha, eu estava pensando: e se a gente ficasse na sua casa?
- Na minha casa?
- É. A gente podia bater um papo.
- (Bater um papo. Fodeu. Ele está me achando neurótica, já sacou que tenho sérios problemas psicológicos e está a fim de me dar uma força. Não tem mais romance no ar. O lance agora é terapêutico, aquela parada de amigo do peito, que faz você desabafar.)
- Ficou muda, Mariana?
- (Ele quer que eu fale alguma coisa, caraca, eu tenho que falar alguma coisa, eu parada dentro do elevador, ele segurando a porta, isso não está certo, meu Deus, vem vindo gente, vão subir, saio do elevador, o Joca solta a porta, eu e o Joca na minha portaria, eu de longo vermelho, ele de bermudão, ele falou em subir, se não me engano, outro dia, ele comentou que quer ser psicólogo, fodeu, ele está querendo começar a praticar, se eu convidar ele para subir, capaz até de eu ter que pagar a sessão...)
- Mariana!
- Hum?
- Mari, você está se sentindo mal? Olha, se você não quer mais sair, tudo bem, a gente combina outro dia...
- (Não quer mais sair, outro dia, meu Deus, fodeu, nem meu psicólogo ele quer ser mais, perdi minha chance de sair com um amante, o Pedro estudando Matemática e eu nessa situação terrível, o que eu faço, caraca, minha mãe e Lu chegando, graças a Deus o Joca não conhece elas, tenho que me esconder!)
- Mari, o que é isso?
- (Fodeu. Agora ele vai querer me levar para o hospício. Eu, de longo vermelho e escarpim de bico fino escondida atrás da mesa da portaria. O porteiro está lá fora, menos mal... Ufa, elas já subiram, muito bem. Agora, dispenso o Joca e tudo volta ao nor... Ih, não dá! Como é que eu vou subir agora? Elas vão me ver com essa roupa louca! Caraca, fodeu de vez. Ih! O Joca me achou!)
- Mari, o que você está fazendo debaixo da mesa?
- (Acho melhor eu falar alguma coisa) Estou vendo o piso!
- Como assim?
- É que o síndico cobrou uma baba dos moradores para trocar o piso, então minha mãe pediu para eu verificar lajota por lajota. Sabe como é: ela quer saber se as emendas estão bem feitas...
- (Ele ficou mudo)
- Joca?
- Hum?
- Você não gosta desse tipo de assunto?
- Que assunto?
- Construção. Eu acho bárbaro.
- É. É bárbaro mesmo, mas... Mari, quer levantar, pelo amor de Deus? O porteiro está vindo.
- Está? (Caramba! O Seu Luiz vai me ver assim. Não! Saio correndo, antes que ele me veja. Ótimo! Consegui um espaço sensacional - atrás do sofá!)
- Eu te adoro sabia?
- Adora?
- Adoro. Esse seu jeito meio louco...
- (Não falei que ele queria Psicologia? Adora louco!) Eu não sou louca!
- Não?
- Não.
- Então, o que está fazendo atrás do sofá?
- Você também está.
- Vim para conversar com você.
- Conversar o quê?
- Que produção é essa, Mari?
- Me enrolei... Na verdade, olha, vou te contar uma coisa. Jura que não conta para ninguém?
- Juro.
- É que, antes de sair, sempre experimento várias roupas, umas cinco, até escolher uma. Mas hoje, como a gente combinou em cima da hora, saí com a primeira que vesti, nem me olhei no espelho. Só vi no elevador... (Ufa, estou aliviada!)
- Essa roupa é linda, sabia?
- É?
- Ela vai muito bem em uma festa high-society...
- Nunca fui. Deve ser maneiro...
- Deve... Mas eu achava que ia te encontrar de calça jeans, roupa normal...
- (Definitivamente, ele sacou que eu não sou normal. O Joca tem talento para psicólogo...)
- Não rola, né, Mari?
- O que não rola?
- Hoje, a gente... gorou.
- É. Acho que sim.
- Mas a gente combina outro dia, está bem? Com certeza!
- Juro que uso calça jeans!
- Falou, Mari. A gente se vê no colégio.
- Falou... (Ué? Ele não tinha dito que gostava de louco? Vai embora, é?)
Domingo. Reclamo de ter que acordar cedo, mas devo admitir que preferia ir para a escola todo dia. Fim de semana só serve para me humilhar. Eu na portaria, com vergonha de sair de detrás do sofá. Se eu subir, elas nunca vão acreditar que hoje eu tive uma festa à fantasia. Se eu dormir aqui, alguém vai me achar e minha mãe vai me matar. Cara, olha a situação! Por que mesmo que entrei nessa roubada? Ah! Porque o Pedro disse que ia estudar Matemática! O meu primeiro ficante! Droga!
Domingo. Reclamo de ter que acordar cedo, mas devo admitir que isso tem suas vantagens. Se hoje já fosse segunda-feira, eu ia estar no inglês. O Pedro não ia estar ocupando tanto assim a minha mente...
Mas hoje é domingo, e passei o dia andando pela casa. Igual aqueles loucos, de um lado para o outro. Ah... É que ontem foi ruim, muito ruim... Não sei por que o Pedro é assim... A festa ótima, todo mundo dançando, se divertindo e ele inventa de ir para casa cedo, porque hoje tinha que estudar Matemática!
Já aconselhei esse menino a não deixar para estudar de véspera, mas não adianta. Ontem, os casais se beijando, e o Pedro: Vou embora, Mariana, segunda-feira, tenho prova de Matemática! A coisa piorou quando eu disse que gostaria muito de ficar até o fim da festa. Ele disse que não estava dizendo que eu ia embora, ele é que ia...
Será possível que ele não sinta ciúme de mim? Se não rola ciúme, é sinal de que não gosta de mim realmente! Ficante que quer namorar não deixa a menina sozinha num festão como o de ontem...
Não cogitei ficar. Saí de lá com ele, contrariada, mas com ele. Afinal, não tinha nada a ver expor para todo mundo que eu estava praticamente tomando um toco. Se, enfim, tenho o meu primeiro ficante...
Antes do Pedro, eu só tinha beijado na boca sete vezes! E três meninos diferentes, com meses de espaço entre um e outro. Eu era muito infeliz! Mas ontem, já foi a quinta vez que saí com o Pedro em menos de um mês!! Eu até estava achando que, na festa de ontem, ele ia enfim me pedir em namoro...
Acho que sofro de complexo de Cinderela. Tipo assim: tudo o que eu queria agora era que um príncipe me tirasse dessa roubada... Eu, princesa. Acho que tenho jeito mesmo... Não é por nada não, mas esse longo me caiu muito bem! Pois é, né? Mas tenho que me conscientizar de que a realidade não é um conto de fadas.
Mariana, entenda de uma vez por todas: o Pedro caga para você. Se ele te considerasse realmente, não ia se satisfazer com essa bobagem de ficantes. Já deu mais do que tempo para ele te pedir em namoro e... nada!
Putz! Que mico, cara... Amanhã, o Joca vai contar para todo mundo no colégio, vou virar assunto de piada, merda! Acho que vou mudar de colégio. Não vai dar para encarar o Joca.
Engraçado... Na verdade, eu gostava do Joca antes de ficar com o Pedro. Tinha pintado um clima na festa da Solange. Mas o Joca demorou a agir e o Pedro... O Pedro tem um jeito assim... mais direto ao ponto. Estava na cara de todo mundo que eu e o Joca... mas o Pedro passou a frente e...
Hoje, o Joca me ligou todo educadinho. Ele é um fofo. Mari, entre você e o Pedro... é namoro ou rolo?, ele me perguntou. Porque se não for sério, eu queria te chamar para sair um dia desses... Fui logo dizendo que com o Pedro é rolo. Afinal, não estou em condições de desperdiçar paqueras. Então, ele me perguntou quando podia passar na minha casa para a gente sair. Eu, louca, disse: daqui a meia hora! Ele veio voando!
- Mari... Desculpa eu ter te deixado aí...
- (Caraca! O Joca voltou de terno!)
- Estou à sua altura agora. Não estou?
- Hum?! (Ele fica mais lindo assim, ai, ai...)
- Pedi para o meu pai levar a gente num lugar bem maneiro. Ele estacionou aqui em frente. Vamos?
- Eu... (Ele estende a mão para me ajudar a levantar) Eu devo estar toda amassada...
- Mari, (Ele me encara), você está uma verdadeira princesa! (Saimos de mãos dadas!)

Fonte: P a r a l e l o s

Tiradentes, Bin Laden e os heróis idealizados
Por: Abner D. Carrazzoni


Interessante é pensar em como o poder dominante de qualquer plano social é capaz de modificar a imagem de certos personagens a fim de criar uma ideologia na população. Ideologia, nada mais do que a cultura na política ou a política na cultura. Essa ideologia vem através da transformação de patifes, maus-caracteres, canalhas e rebeldes em heróis da pátria, libertadores.
Os exemplos não faltam. Tiradentes, por exemplo, era apenas um pobre beberrão, comedor de criancinha. Foi condenado por conveniência pelo governo, por um crime que não cometeu sozinho. Após a sua morte, caiu no esquecimento; ninguém mais sabia quem era Tiradentes.
Acontece que quando o país se torna independente é hora de buscar heróis que defenderam a liberdade. Ou seja, enquanto o governo precisou de um mau exemplo, Tiradentes era um; aquele que desobedeceu às ordens da coroa e teve a morte que mereceu. Porém, quando o governo precisou de bom exemplo, bem, ele também era um bom exemplo: aquele que ajudou no processo de libertação do país e desde muito tempo atrás já lutava pela liberdade.
Todavia, a política tem dois lados. A ideologia pode partir tanto do interesse do governo para a cultura popular, quanto da cultura popular para o governo. É o que aconteceu mais ou menos com Cristo e o cristianismo (ou paulonismo, como quiserem) espalhado de Roma para o Mundo.
Fica no ar a indagação sobre o quê vai ser da imagem de Bin Laden daqui a alguns anos, quando o capitalismo estiver vencido por algum outro sistema sócio-econômico. Será ele o herói libertador que teve coragem de atacar as torres em pleno auge do poder da Casa na Colina?
Realmente não há como supor. Parece uma possibilidade absurda, e na verdade é bastante absurda mesmo. Mas o fato é que o barbudo anda conquistando fãs pelo ocidente também. E não são muçulmanos, descendentes de orientais ou simpatizantes da cultura islâmico-terrorista. São cidadãos crescidos e educados por aqui mesmo. Os movimentos pró-Bin Laden já começam a rodar a América, mesmo que ainda receosos por repressão por parte do governo.
Porém, os casos mais inusitados são os de registros de crianças com o nome de "Osama Bin Laden". Os pais, loucos ou não, já parecem se preparar para a época em que Bin Laden será herói. (E ainda me chamam de louco quando brinco que quero por o nome de meu filho de Ludwig Wolfgang Dmitruk Carrazzoni, em homenagem aos gênios da música.)
Agora, só falta saber o que o governo americano acha disso. Com certeza, são movimentos isolados e não representam nenhum perigo real pra qualquer instituição que se preze. Mas a situação pode servir ao menos como objeto de reflexão: até onde vai a hegemonia americana e o seu poder como potência capitalista?
Só Deus sabe. Ou Allah. Vai saber, né?

Fonte: Caneta de Saia

Kafka e os estudos
Por: Martha Medeiros

Nada como encontrar um texto que
diz exatamente tudo que você sempre pensou sobre algo!
É exatamente assim que eu sempre me senti na escola.
Como a Martha Medeiros, não sou a única que me
questiono sobre a validade do que aprendi por lá...
Será que é isso mesmo que era preciso aprender?
Física, matemática... Até aonde
isso me fez mais preparada para a vida?
Pelo menos, aprendi a questionar.


Fui uma aluna, digamos, razoável. Tirava notas boas, passava quase sempre por média, mas era desinteressada. Estudava o suficiente para passar de ano, mas não aprendia de verdade. Bastava alcançar as notas que me aprovariam para, instantaneamente, tudo o que havia sido decorado evaporar da minha cabeça. Não tenho orgulho algum em contar isso, me arrependo bastante de não ter prestado atenção pra valer nas aulas e de não saber mais sobre história, em especial. Mas foi assim. E só fui compreender as razões deste meu desligamento agora, ao ler "Cartas ao pai", de Franz Kafka.
Nesta carta (editada pela coleção de bolso da L&PM), ele a certa altura admite que estudou mas não aprendeu nada, apesar de sua memória mediana e de uma capacidade de compreensão que não era das piores. Considerava lastimável o que lhe havia ficado em termos de conhecimento. Disse mais ainda, e nisso exagerou: que seus anos na escola haviam sido um desperdício de tempo e dinheiro.
Não é pra tanto, estudar nunca é um desperdício, mas quando li esta confissão audaciosa eu quis saber mais. Por que isso, afinal? A justificativa: ele sempre teve uma preocupação profunda com a afirmação espiritual da sua existência, a tal ponto que todo o resto lhe era indiferente.
Há em "afirmação espiritual da existência" solenidade demais para descrever a menina que fui, mas era mais ou menos assim que a coisa se dava. O que eu queria aprender de verdade não passava nem perto do quadro-negro. O que me interessava -
e interessa até hoje - eram as relações humanas, e tudo de mágico e de trágico que elas representavam numa vida.
No caso, a minha vida.
Entre os 7 e os 17 anos, eu tinha urgência em estudar o caminho mais curto para ser amada. A escola era como um país estrangeiro. Pela primeira vez eu não estava em casa, nem em segurança. Tinha que aprender como fazer amizades e mantê-las, como demonstrar emoções sem me fragilizar, como enfrentar agressões sem cair em prantos, como explicar todas as minhas idéias sem me contradizer, como ser honesta e ao mesmo tempo não ofender os colegas, e nisso gastei infindáveis manhãs e tardes prestando atenção em mim e nos outros - pouco nas lições.
Havia um pátio, havia um bar, havia um portão fechado, havia os banheiros e a biblioteca, e tudo era desafiador. Eu tinha que descobrir em mim a coragem para quebrar certas regras, fumar escondido, namorar. Ficava muito atenta às diferenças entre sabedoria e hierarquia: não era possível que os professores estivessem sempre certos e os alunos, errados. E as matérias me pareciam tão inúteis... Matemática, química e física me eram desnecessárias, eu queria saber sobre teatro, música, filosofia, psicologia, sexo, paixão, eu queria entender o que me fazia ficar zangada ou em êxtase, eu queria aprender mais sobre melancolia, desespero, solidão, eu tinha especial atração pelas guerras familiares e pelas mentiras que sustentam a sociedade, eu queria ter conhecimento sobre ironia, ter domínio sobre o pensamento, entender por que alguns gostavam de mim e outros me esnobavam, lutar contra o que me angustiava. Inocente, queria saber como se fazia para ter certezas.
Eu, que tirava nota máxima em bom comportamento, precisava urgentemente que me explicassem o que fazer com o resto de mim, com aquilo que eu não usufruía, a parte errada do meu ser. "Afirmação espiritual da existência". Da escola saí faz tempo, mas nunca parei de me estudar.
E Kafka, quem diria, acabou dando um bom professor.

Fonte: Jornal O Globo

Poema em 3x4
Por: Márvio dos Anjos


Um 3x4 teu em minha mesa
Me contempla,
Me vigia,
Vela o passar da tarde do meu lado e
me assedia,
Pedindo uma olhadela.

Um 3x4 teu é uma janela,
Onde às vezes
Eu te vejo
Quase sorrindo tímida e pensando
Num desejo,
Que apenas nessa foto caberia.

Num 3x4 teu sorri meu dia.

Fonte: Nobre farsa

O Brasil já foi civilizado?
Por: Fernando Paiva

Tem gente com saudade da monarquia...

Ouvi essa frase dentro do museu imperial, em Petrópolis, vinda da boca de uma senhora que admirava a opulência da mobília que pertenceu à realeza brasileira. Assim como ela, há muita gente por aí que concorda com tal afirmativa. São, provavelmente, as mesmas pessoas que se enganam com as promessas de políticos engomadinhos, nascidos em famílias ricas, que, com a maior cara-de-pau, garantem nas campanhas eleitorais que estão do lado do povo. Alguém já disse que, no Brasil, pobre não vota em pobre. Isso me parece incrivelmente verdadeiro. Vale lembrar que até o Lula precisou reformar sua imagem para vencer a eleição: comprou ternos italianos e tirou a barba dos tempos de líder operário.
Dom Pedro II e sua família passavam os verões em Petrópolis, nesse aprazível palácio com mais de quarenta aposentos e um jardim enorme. Nele, faziam festas, comiam do bom e do melhor e ostentavam uma riqueza inalcançável aos demais cidadãos. Dezenas de empregados e escravos ficavam à sua disposição, para realizar quaisquer desejos e vontades que tivessem. A coroa do imperador, hoje exposta no museu, pesa quase 2 kg e é de ouro com diamantes incrustados. Tudo pago com o dinheiro do meu, do seu, dos nossos tataravôs.
Hoje, em tempos - democráticos -, nos parece surreal a idéia de sustentar com tamanha opulência uma família real e nos causa espanto quando alguém defende a volta da monarquia. Mas será que as coisas mudaram tanto assim desde a proclamação da República nesse país? Creio que nem deixamos de ser civilizados, como acredita a tal senhora, nem nos tornamos civilizados, como talvez pensem alguns.
Em vez de sustentar uma única família real, sustentamos algumas centenas de políticos parasitas, que recebem salários para supostamente nos representar, mas, em verdade, atuam, a maioria deles, em benefício próprio ou das empresas que lhes bancaram as campanhas eleitorais. No lugar da nobreza, a burguesia assumiu o poder político. As correntes que prendiam os escravos foram quebradas, mas outras, invisíveis, continuam prendendo os pés dos negros.
Em um dos últimos aposentos aberto ao público está exposta uma cópia da lei Áurea, que extinguiu a escravidão em 1888. Na saída do museu, ao longo da grade que rodeia o jardim, os visitantes, a maioria deles brancos de classe média, são abordados por vendedores de bugigangas, doces e souvenirs, quase todos eles negros. Quase nada mudou.
Eu devia ter dito àquela senhora:
-não sei por que tanta saudade!-

Fonte: Revista Paradoxo

Minicontos do desconforto (xi-xx)
Por: André Machado

13
Ele abriu o freezer. Já fazia seis meses que pusera lá o coração. Achava que estava pronto para outra, agora que a esquecera. Tirou o pote e o depositou na pia. Enfiou o coração de volta na caixa torácica. Só então percebeu que ele não sabia mais bater.

16
"Você não deve se envolver com uma mulher misteriosa de olhos negros", disse a cartomante. E ele, sempre supersticioso, assentiu. Ao deixar a tenda, tropeçou nela. Miúda, sorriso franco e olhos verdes. Gostaram-se de cara. Saíram dali para o primeiro drinque. Acabaram fazendo amor no elevador, a caminho do apartamento dela.
Ele sentia o peito explodir de felicidade e prazer. Sentou-se no sofá, pensando em como aquilo era refrescante, diferente de tudo que já vivenciara. Então ela voltou lá de dentro.
E seus olhos eram agora negros como azeviche.
Ele soltou um grito e fugiu espavorido, deixando mudo na boca da companheira o comentário sobre as lentes de contato.

17
Ficou olhando para o revólver em cima da cama. O palácio estava silencioso.
Entendeu que, cedo ou tarde, os militares tomariam o poder. Só podia adiar o inevitável. Que fosse tarde, ora diabos.
Mas estava com medo. Merda, pensou, por que fui nascer numa época em que só existem presidentes? Se fosse imperador, teria um escravo que não hesitaria em ajudá-lo a se matar. Aí lembrou-se de Nero. "Covardão, precisou que alguém lhe empurrasse o punhal garganta adentro..."
Não, sua decisão seria solitária.
Deu a última tragada no charuto. Ia sentir falta disso. Pegou a arma, apontou-a para o peito, como o amigo lhe ensinara.
Então teve uma visão. Afrodite surgiu diante de si, em todo o seu esplendor. Instou com ele que poupasse a própria vida, mostrou-lhe imagens de um futuro brilhante à frente, após aquela crise de pouca monta se comparada com as que viriam no fim do século.
Ele titubeou. Pensou alguns instantes. Foi o suficiente para se lembrar do pouco de mitologia que aprendera. Afrodite, aquela beldade à sua frente, havia sido amante de Ares. O deus da guerra. Um milico safado!
Olhou para a deusa e viu que seus lábios, perfeitos, tremiam. Os olhos se moviam rapidamente. Ela suspirou e ele viu uma nova deidade se formando perto da escrivaninha. Usava um elmo e portava uma lança.
Atirou no próprio peito, não sem antes sorrir. Morreu gargalhando ante a inépcia olímpica.

Fonte: Paralelos

Algo em meus olhos que perdi nos teus
Por: Márvio dos Anjos


Algo em meus olhos que perdi nos teus
Existe, e que não quero ter de volta.
Desejo apenas vê-lo em tua face,
Dia após dia,
Pois, se o haver perdido fez-me assim,
Com algo de cegueira, sem razão em mim,
O que enxergo de meu quando me encantas
Já me permite ver tudo que quero.

Algo em meus olhos que perdi nos teus
Existe, e te faz linda como apenas eu posso apreciar,
Por conta do que podes ver
Somente em mim.

Fonte: Nobre farsa

É só ver por outro ângulo!!!
Por: Maurício Manieri

Entrei no último vagão do metrô na estação Santana. Sentei no primeiro banco vazio que vi. Estava completamente exausto. O dia tinha sido de muito trampo e correria. Além das gravinas, tive que resolver alguns pepinos. Encostei a cabeça na janela e começei a tirar um cochilo. Pensei em relaxar nos quarenta minutos até o meu destino, a estação Vila Mariana. No momento em que comecei a relaxar, a composição para. De repente a porta se abre e um senhor com três crianças pequenas entra no vagão. O homem se senta próximo a mim, junto com as crianças. Cada uma delas está carregando um sorvete de casquinha semi-derretido. De repente, a molecada começa a fazer uma verdadeira balbúrida no vagão vazio. Pensei:
- " Lá se vai meu relax"!!!
E corre pra cá e corre pra lá! Ê da-lhe derramar sorvete no vestido branco da senhora sentada a minha frente. Um grita daqui outro grita dalí. Aqueles berros ecoavam no meu ouvido e torturavam meu cérebro. Enquanto isso, o homem , que devia ser pai das crianças, não dava a mínima. Ficava alí, impassivo, imóvel!!! Comecei então a ficar indignado:
- Será que esse senhor não se toca. Olha o inferno que tá virando este trem!!!! Pôxa vida, o Pai tem que educar os filhos, dar-lhe modos! Se eu estivesse no lugar dele, com certeza não iria permitir um negócio desses. Falta de respeito, pô!! Além do mais é perigoso pras crianças ficarem correndo no vagão!!! Pai desnaturado!!!
Tenho que confessar. Fiquei meio p da vida!! As poucas horas de sono da minha última noite e o stress acumulado me fizeram dar uma reprimenda no homem!! Olhei pra ele com cara de poucos amigos e falei:
- Ô meu senhor?!!! Dá um jeito nas crianças!! Tem gente aqui querendo descansar!! Olha alí, já derramaram até sorvete na saia daquela senhora!! É perigoso eles ficarem correndo pra lá e pra cá!! Podem até se machucar!!
O homem olhou pra mim. Levantou-se e veio sentar ao meu lado. Com expressão de vergonha pediu desculpas:
- Desculpe-me pelo transtorno. Sabe, o dia não foi nada fácil pra mim. Minha esposa faleceu hoje de manhã e estamos voltando do hospital. Por isso resolvi deixar as crianças à vontade. Pode ficar tranquílo que elas não irão mais te incomodar!!!
Nossa!!! Que vergonha!!!! Como desejei naquele momento me teletransportar!! Sumir dalí ! Virar um formiga e sair de fininho!! Como não tinha pensado nisso? Vi o cara e nem pensei na situação em que ele poderia estar envolvido!!! Aquele dia serviu de lição pra minha vida!!!
Sabe, nós humanos, sempre temos a mania de ver as coisas por um só plano!! Confesse pra mim: - Quantas vezes você já ficou magoado com alguém, mas depois percebeu que tinha cometido um engano !! É como a história do vagão. Deixou a raiva tomar conta e não conseguiu ver as coisas por outro ângulo!!!

Trecho retirado do blog do Maurício Manieri.
Descobri o endereço ontem vendo Altas Horas
e achei bem legal! Nunca fui fan do cara,
nem o conhecia direito, mas gostei bastante
do blog. Textos interessantes e cotidianos
que revelam um cara humilde e boa
pessoa! Confiram...

Fonte: Blog do Maurício